Fonte: Amai-vos
CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID
Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro
No dia 7 de junho, celebramos a festa de Corpus Christi, ou seja, a festa do Corpo de Cristo, cuja humanidade glorificada está inseparavelmente unida à sua divindade, na Pessoa divina do Verbo, oferecida a nós na Sagrada Eucaristia e presente nos sacrários de nossas igrejas. A característica marcante desta celebração é o culto público que lhe prestamos, ao longo das ruas de nossa cidade.
Desejo fazer uma breve interpretação, bem próxima de nossa vida, das razões para a adoração ao Santíssimo Sacramento. Jesus Cristo se faz presente no sacrário, em aparente solidão. Na realidade, como disse Marta a Maria, ambas irmãs de Lázaro: “O Mestre está aí e te chama” (Jo 11,28). Ao aproximarmo-nos daquele pequeno local, palpitante de Vida, a solidão se muda em proximidade íntima, lembrando-nos, a todo momento, as palavras do próprio Senhor: “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,20). Ele se revela no Pão consagrado, assim como apareceu aos discípulos de Emaús, redivivo e glorioso (cf. Lc 24,30-31). A manifestação de sua Presença afasta toda decepção e cura toda solidão, infundindo nova força, pois “tudo posso naquele que me fortalece” (Fl 4,13).
Ao expor o Santíssimo Sacramento, seja nos altares, seja nas procissões, a Igreja nos proporciona a oportunidade de adorá-lo e de agradecer-lhe, como o maior Dom de amor oferecido aos seres humanos. Isto suscita, também, em nós a ânsia de recebê-lo, como alimento que nos restaura, e bebida que sacia a nossa sede do Infinito e dos valores transcendentes, que o Espírito Santo nos inspira. Sentimos saudades de Deus.
Na Eucaristia acontece algo sumamente importante, que a teologia chama de “assimilação”. Assimilare, em latim, significa “tornar parecido”. Quando nos alimentamos, grande parte daquilo que consumimos permanece em nós, sem que nos demos conta disto. Assim, o alimento nos conserva vivos e ativos. Ao recebermos a Eucaristia, acontece um fenômeno análogo. São Paulo fala da “configuração”, da “conformação” a Cristo (cf. Rm 8,29). E, na proporção em que recebemos Cristo glorioso, nós nos tornamos semelhantes a Ele, revestindo-nos desse Homem novo, a tal ponto que, na hora da morte, já estejamos a um passo de sermos glorificados.
A Eucaristia também nos cura da auto-suficiência. Não fomos feitos para assenhorearmo-nos de nossa orientação na vida. Aquele que nos criou, segundo sua eterna, infinita e bondosa sabedoria, infundiu em nós sua lei, para reconhecermos o bem e o mal. Entretanto, a tentação da autonomia, “ser como deuses” (cf. Gn 3,4), é recorrente no ser humano. Sua conseqüência, invariavelmente, é o fracasso de nossas ilusões, deixando-nos como que despidos e derrotados. Nestas circunstâncias, em que nos confrontamos com a nossa própria realidade, a Eucaristia vem nos confortar: “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5). Isto significa que nossa capacidade de agir e de realizar depende de nossa ligação a Cristo, como ramos enxertados na cepa (cf. Jo 15,1-5).
Haurindo a seiva da videira verdadeira, ingressamos na dinâmica da “vida nova”, como nos fala São Paulo: “Fomos, pois, sepultados com Ele na sua morte pelo batismo para que, como Cristo ressurgiu dos mortos pela glória do Pai, assim nós também vivamos uma vida nova” (cf. Rm 6,4). A vida nova é exatamente aquela do Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, corpo e alma humana glorificados, que nossos olhos terrenos não podem ver, pois seriam incapazes de suportar a extraordinária glória divina, como Ele se apresenta hoje, junto do Pai e do divino Espírito Santo.
A vida nova precisa ser sustentada, e o próprio Senhor se faz esse alimento: “Eu sou o pão da vida: aquele que vem a mim não terá fome, e aquele que crê em mim jamais terá sede” (Jo 6,35). Assim, purificamo-nos do velho pão fermentado pela malícia e pela corrupção, para sermos massa nova, pães ázimos de pureza e de verdade (cf. 1Cor 5,7-8).
Também falamos da Eucaristia como nosso “viático”, cujo significado é o de “alimento dos que caminham”. O Senhor sabe do que precisamos para chegar ao fim da jornada. Estamos na estrada, e a caminhada em procissão é um forte símbolo do passo a passo da vida, até chegarmos ao termo definitivo, que é o encontro final com Deus. Tudo isso é profundamente real e existencial. É o que devemos ter presente, quando caminhamos com Jesus eucarístico, pelas nossas ruas.
Peço a Jesus na Eucaristia que, ao ser conduzido em procissão, totalmente entregue aos cuidados de nossas pobres mãos humanas, derrame suas bênçãos sobre nossa cidade. Não só sobre os lugares pelos quais a nossa procissão passa, mas sobre todas as comunidades carentes que cercam nossos centros urbanos, nos morros ou na periferia, como testemunhos inequívocos do perverso processo de exclusão social a que nosso povo simples tem sido submetido. Que Ele abençoe, também, cada instituição, cada casa, cada família e cada um de nós, especialmente os doentes, os que sofrem situações desesperadoras, os que buscam sentido para suas vidas. Que, à vista de Jesus que passa, possam converter os corações para Ele, como tantos o fizeram, durante a vida terrena do Senhor.
Que esta procissão não tenha sido um ato devocional a mais, dentro da externação da nossa fé. Mas um gesto profundamente comunitário, envolvendo todos os fiéis católicos e os cariocas de boa vontade. Unidos pela presença ou, ao menos, pela oração, acolhemos Jesus que veio a nós, num gesto de profundo amor pela nossa cidade, tão querida pelos seus filhos e filhas e por todos os que nela habitam, inclusive quem recebeu a cidadania carioca honorífica. Demos, sempre, a Jesus a alegria do nosso sorriso de gratidão. Ofereçamos-lhe, também, o compromisso do nosso empenho por uma sociedade justa, humana e fraterna, onde os valores que Ele nos ensinou sejam respeitados e acolhidos.
“As lições que melhor educam, na Eucaristia é que nos dais!”

Eu gostaria de saber como é decidido ou contado a data para o feriado de Corpus Christis, por exemplo a páscoa sera sempre depois da quaresma que é representada por 40 dias. E o Corpus Christis?
Sei que este dia celebra a adoração ao sacramento ao corpo de Cristo representado na hóstia. É isso mesmo?